quinta-feira, 14 de junho de 2012

Rio mais 20 - O que penso



O vídeo acima representa meu sentimento em relação à essa conferência. Em resumo: pros infernos com esse papinho de desenvolvimento sustentável. Desenvolvimento, ou seja, incremento da economia, é sinônimo de degradação ambiental. Matematicamente: aumento da indústria (qualquer que seja) - necessidade de energia; aumento de consumo - necessidade de energia; crescimento econômico - necessidade de energia; necessidade de energia (qualquer que seja) - degradação ambiental. 
Esse encontro me parece o chá das 5 de um grupo de megacorporações e da ONU, aproveitando-se da boa vontade, aliada à uma certa dose de ingenuidade, de cientistas, técnicos, militantes e oportunistas vinculados às questões e preocupações ambientais. Afinal, os recursos naturais estão se esgotando... isso é alardeado desde que sou criança. O que importa é que o desenvolvimento não pode parar. "Sacrifícios menores" devem ser tolerados para o progresso e "bem de todos". Na verdade, "os bens" de poucos.
Me irrito há tempos com esse discurso midiático do desenvolvimento sustentável. Alternativas e soluções são apresentadas frequentemente e oportunamente até em programas temáticos específicos (lembra-se do pioneiro Globo Ecologia?). Contudo, ninguém até hoje, pelo que tenha visto, desestimulou o consumo de coisas inúteis. Nem mesmo os programas e educação ambiental. Que horror! Separe o lixo da sua casa, mas compre o carro último modelo. Compre produtos de empresas com o selo ambiental e baixe o aplicativo para o seu Smartfone que monitora o índice de poluição. Quanta picaretagem. Quanta desonestidade.
Estou farto desse papinho ambiental. Até candidatos do PV, que se julgam baluartes da causa ambiental, vendem fórmulas que combinam desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Pra cima de mim não, violão. Não me satisfaço com a "queda nos índices de desmatamento", mas ao mesmo tempo, aumento da indústria automobilística e de bens de consumo.
Talvez o socialismo tenha uma resposta mais concreta, viável e honesta para esse tema. Agricultura familiar. Microusinas energéticas. Reaproveitamento de resíduos para produção de energia. Transporte coletivo de massa. Distribuição de renda. Socialização dos bens de produção. Reforma agrária com condições de produção. Educação humanizada, e não alienada. Êxodo urbano. Etc.
Viagens minhas. Mas sem esse papinho chinfrim de Rio+20. Gostaria mesmo é de reunir 20 e ir ao Rio pra gritar isso na cara desses hipócritas. Mas... não deu desta vez. Grito por aqui mesmo.

Sugestões de referências:
A história das coisas. http://www.youtube.com/watch?v=3c88_Z0FF4k . Acesso em 13/06/2012
Ecologia e Socialismo. Michael Löwy. São Paulo, Cortez, 2005.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Marcha das Vadias


Fibra total. Marcha das vadias é mais um grito estridente que se origina na violência cotidiana que a mulher sofre e sempre sofreu em toda a história. Mais um basta. É necessário o reconhecimento desta marcha, e para quem a discerne, a obrigatoriedade da mudança de atitude e paradigma. Liberdade! De fato, somos todos vadias(os).


Manifesto 2012 – Por que marchamos?

Carta Manifesto da Marcha das Vadias/DF 2012
Por que marchamos?
Em 2011, fomos duas mil pessoas marchando por uma sociedade sem violência contra a mulher. No DF, marchamos porque houve cerca de 684 inquéritos policiais em crimes de estupro – uma média de duas mulheres violentadas por dia -, e sabemos que ainda há várias mulheres e meninas abusadas cujos casos desconhecemos. Marchamos porque muitas de nós dependemos do precário sistema de transporte público do Distrito Federal, que nos obriga a andar longas distâncias sem qualquer segurança ou iluminação para proteger as várias mulheres que são abusadas sexualmente ao longo desses trajetos.
Dia 26 de maio deste ano, continuaremos marchando porque, no Brasil, aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano e, mesmo assim, nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro. Marchamos porque o nosso Superior Tribunal de Justiça inocentou um homem que estuprou três meninas de 12 anos alegando que elas já se prostituíam, culpabilizando as vítimas, ignorando sua situação de vulnerabilidade e negando a falência do próprio Estado, incapaz de garantir uma vida digna para que meninas tão novas não fossem levadas a serem exploradas sexualmente. Marchamos porque vivemos em uma sociedade onde homens são capazes de planejar e executar um estupro coletivo de seis mulheres como “presente de aniversário”. Marchamos pelo direito ao aborto legal e seguro, porque não queremos Legislativo, Judiciário ou Executivo interferindo em nossos úteros para nos dizer que um aborto é pior que um estupro. Marchamos principalmente para que as mulheres pobres, que abortam em condições desumanas, não continuem sendo criminalizadas e levadas à morte pela negligência e perseguição do Estado, como no caso recente em que o Tribunal de Justiça de São Paulo levará uma mulher acusada de aborto a Juri Popular a pedido do Ministério Público. Marchamos porque o Brasil ocupa, vergonhosamente, o 7 º lugar em homicídio de mulheres e porque, a cada 15 segundos lendo este Manifesto, uma mulher é agredida em algum canto do país.
Continuaremos marchando porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV nas tardes de domingo e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja, vendendo a nós mesmas como mero objeto de prazer e consumo dos homens. Continuaremos marchando porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo em “santas” e “putas”, e a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos – voltada ao prazer masculino – se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas/os filhas e filhos. Continuaremos marchando porque mulheres ainda são minoria em cargos de poder e recebem em média 70% do salário dos homens. Continuaremos marchando porque há trabalhos desempenhados por uma maioria feminina que não são reconhecidos, nem dotados de valor econômico, porque as trabalhadoras domésticas são invisibilizadas, exploradas, discriminadas e não têm assegurados alguns dos direitos fundamentais mais básicos do trabalho. Continuaremos marchando porque prostitutas fazem parte do funcionamento de uma sociedade machista e hipócrita que, ao mesmo tempo em que se utiliza de seus corpos, insiste em negar suas cidadanias.
Marchamos contra o racismo porque durante séculos nós, mulheres negras, fomos estupradas e, hoje, empregadas domésticas são violentadas, assim como eram as mucamas. Marchamos pelas crianças negras que são hostilizadas pela cor de sua pele, por seus cabelos crespos e são levadas a negar suas identidades negras desde a infância, impelidas a aderir ao padrão de beleza racista vigente. Marchamos porque nossa sociedade racista prega que as mulheres negras são “putas” por serem negras, tratando-nos como mulas, mulatas e objetos de diversão, desprovidas de dor e pudor. Marchamos porque nós negras vivenciamos desprezo e desafeto reduzindo nossas possibilidades afetivas; “Vadia” enquanto estigma recai especialmente sobre nós negras, por isto marchamos em repúdio a esta classificação preconceituosa e discriminatória de nosso pertencimento étnico-racial.
Marchamos pela saúde das mulheres negras, porque temos menos acesso aos serviços de saúde, porque nos negam pré-natais, cesarianas e anestesias por acreditarem que somos animais e não sentimos dor, porque sofremos tentativas de extermínio ao sermos submetidas a esterilizações cirúrgicas sem nosso consentimento, porque somos as que mais morremos em virtude de abortos clandestinos e de complicações no parto, porque nos oferecem atendimento inadequado por terem nojo de nossos corpos negros. Marchamos pelas cotas raciais nas universidades públicas, porque temos menos acesso à informação e ao ensino superior e queremos ser mestras, doutoras e ter autoridade do argumento para escrever nossas próprias histórias. Marchamos para exigir providências contra as ameaças dirigidas a nós da Marcha das Vadias e às/os estudantes da Universidade de Brasília, proferidas por grupos de ódio que insultam mulheres, negros/as e homossexuais. Marchamos porque não vamos deixar que o medo nos silencie.
Marchamos também porque nós, mulheres indígenas, lideramos os índices de mortalidade materna e há mais de quinhentos anos sofremos agressões e estupros como arma do genocídio social e cultural de nossos povos. Marchamos porque mulheres e meninas indígenas têm suas necessidades específicas ignoradas pelo governo, que negligencia o fato inaceitável de que, no mundo, uma em cada três indígenas é estuprada durante a vida e que, no Brasil, muitas mulheres e meninas indígenas são levadas à prostituição e ao trabalho escravo pela condição de extrema pobreza em que vivem.
No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que devem ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual. Marchamos porque, como reflexo desse cenário de opressão e subordinação, 70% das mulheres com deficiência intelectual, como a síndrome de down, já sofreram abuso sexual, cometido muitas vezes por seus próprios cuidadores e/ou familiares. Marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo. Marchamos porque há poderes institucionalizados que banalizam todas essas violências, porque o Estado não toma todas as medidas necessárias para prevenir as nossas mortes e porque estamos cansadas de sentir que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente.
Mas podemos.
Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque não seguimos o que a sociedade ou a nossa família esperava de nós,  já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, por um ou vários homens ao mesmo tempo, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e curradas durante a Ditadura Militar e em todos os regimes carcerários antes e depois disso. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES.
Mas, hoje, marchamos mais uma vez para dizer que não aceitaremos que palavras e ações sejam utilizadas para nos agredir. Nenhuma palavra mais vai nos parar, impedir, restringir ou dividir, pois os direitos das mulheres são de todas. Enquanto, na nossa sociedade machista, algumas forem invadidas e humilhadas por serem consideradas vadias, TODAS NÓS SOMOS VADIAS. E somos todas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres para ser o que quisermos! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos. Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque tiveram seus corpos invadidos, foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência, o direito à expressão da própria sexualidade e a autonomia sobre o próprio corpo são alguns dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desses direitos fundamentais que marchávamos há um ano, marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres.
Marcharemos para que não restem dúvidas de que nossos corpos são nossos, não de qualquer homem que nos assedia na rua, nem dos nossos pais, maridos ou namorados, nem dos pastores ou padres, nem dos Congressistas, nem dos médicos ou dos consumidores. Nossos corpos são nossos e vamos usá-los, vesti-los e caminhá-los por onde e como bem entendermos. Livres de violência, com muito prazer e respeito!
Negras, brancas, indígenas, estudantes, trabalhadoras, prostitutas, camponesas, transgêneras, mães, filhas, avós. Somos de nós mesmas, somos todas mulheres, somos todas vadias!
Vídeo muito bacana da marcha/2012




quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dilma e uma lição para a vida

Ontem na instauração da Comissão da Verdade, cuja atribuição é investigar a participação de agentes públicos em crimes de violação aos direitos humanos, nossa presidenta fez um discurso que emocionou a todos aqueles que acreditam na justiça, na honestidade, na humanidade, na democracia e principalmente na dignidade. Essa é a luta de muitas famílias que perderam entes amados principalmente nos anos de ferro da ditadura burguesa-militar. Aos trancos e barrancos, Dilma tem demonstrado quem manda. Um exemplo de dignidade e luta. Logicamente, nem tudo é cor-de-rosa. Mas tem demonstrado muita coragem e tenacidade em atitudes dignas de mandatários, assumindo a responsabilidade na hora certa. E com muita sensibilidade. 

O discurso reproduzido abaixo pode servir de exemplo para aqueles que acreditam que o tempo é o senhor da verdade, e a história, seu relator. E que vale a pena lutar por aquilo que se acredita, pois, de fato, sempre haverá alguém que busca a verdade assim como nós. A verdade histórica. Essa deveria ser uma lição para cada educador e educadora, que neste momento histórico padecem de sentido histórico: a alienação versus a humanização. 


Senhoras e senhores,
Eu queria iniciar citando o deputado Ulysses Guimarães que, se vivesse ainda, certamente, ocuparia um lugar de honra nessa solenidade.
O senhor diretas, como aprendemos a reverenciá-lo, disse uma vez: “a verdade não desaparece quando é eliminada a opinião dos que divergem. A verdade não mereceria este nome se morresse quando censurada.” A verdade, de fato, não morre por ter sido escondida. Nas sombras somos todos privados da verdade, mas não é justo que continuemos apartados dela à luz do dia.
Embora saibamos que regimes de exceção sobrevivem pela interdição da verdade, temos o direito de esperar que, sob a democracia, a verdade, a memória e a história venha à superfície e se torne conhecidas, sobretudo, para as novas e as futuras gerações.
A palavra verdade, na tradição grega ocidental, é exatamente o contrário da palavra esquecimento. É algo tão surpreendentemente forte que não abriga nem o ressentimento, nem o ódio, nem tampouco o perdão. Ela é só e, sobretudo, o contrário do esquecimento. É memória e é história. É a capacidade humana de contar o que aconteceu.
Ao instalar a Comissão da Verdade não nos move o revanchismo, o ódio ou o desejo de reescrever a história de uma forma diferente do que aconteceu, mas nos move a necessidade imperiosa de conhecê-la em sua plenitude, sem ocultamentos, sem camuflagens, sem vetos e sem proibições.
O que fazemos aqui, neste momento, é a celebração da transparência da verdade de uma nação que vem trilhando seu caminho na democracia, mas que ainda tem encontro marcado consigo mesma. Nesse sentido… E nesse sentido fundamental, essa é uma iniciativa do Estado brasileiro e não apenas uma ação de governo.
Reitero hoje, celebramos aqui um ato de Estado. Por isso, muito me alegra estar acompanhada por todos os presidentes que me antecederam nestes 28 benditos anos. Por isso, muito me alegra estar acompanhada por todos os presidentes que me antecederam nestes 28 benditos anos de regime democrático.
(...)
Cada um de nós aqui presentes – ex-presidentes, ex-ministros, ministros, acadêmicos, juristas, militantes da causa democrática, parentes de mortos desaparecidos e mesmo eu, uma presidenta – cada um de nós, repito, é igualmente responsável por esse momento histórico de celebração.
Cada um de nós deu a sua contribuição para esse marco civilizatório, a Comissão da Verdade. Esse é o ponto culminante de um processo iniciado nas lutas do povo brasileiro, pelas liberdades democráticas, pela anistia, pelas eleições diretas, pela Constituinte, pela estabilidade econômica, pelo crescimento com inclusão social. Um processo construído passo a passo, durante cada um dos governos eleitos, depois da ditadura.
(...)
O Brasil deve render homenagens às mulheres e aos homens que lutaram pela revelação da verdade histórica. Aos que entenderam e souberam convencer a nação de que o direito à verdade é tão sagrado quanto o direito que muitas famílias têm de prantear e sepultar seus entes queridos, vitimados pela violência praticada pela ação do Estado ou por sua omissão.
É por isso, é certamente por isso que estamos todos juntos aqui. O nosso encontro, hoje, em momento tão importante para o país, é um privilégio propiciado pela democracia e pela convivência civilizada. É uma demonstração de maturidade política que tem origem nos costumes do nosso povo e nas características do nosso país.
Tanto quanto abomina a violência e preza soluções negociadas para as suas crises, o Brasil certamente espera que seus representantes sejam capazes de se unir em torno de objetivos comuns, ainda que não abram mão, mesmo que mantenham opiniões divergentes sobre outros temas, o que é normal na vida democrática.
(...)
Nós reconquistamos a democracia a nossa maneira, por meio de lutas e de sacrifícios humanos irreparáveis, mas também por meio de pactos e acordos nacionais, muitos deles traduzidos na Constituição de 1988.
Assim como respeito e reverencio os que lutaram pela democracia enfrentando bravamente a truculência ilegal do Estado, e nunca deixarei de enaltecer esses lutadores e lutadoras, também reconheço e valorizo pactos políticos que nos levaram à redemocratização.
Senhoras e senhores,
Hoje também passa a vigorar a Lei de Acesso à Informação. Junto com a Comissão da Verdade, a nova lei representa um grande aprimoramento institucional para o Brasil, expressão da transparência do Estado, garantia básica de segurança e proteção para o cidadão.
Por essa lei, nunca mais os dados relativos à violações de direitos humanos poderão ser reservados, secretos ou ultrassecretos. As duas – a Comissão da Verdade e a Lei de Acesso à Informação – são frutos de um longo processo de construção da democracia, de quase três décadas, do qual participaram sete presidentes da República. Quando falo sete presidentes é porque estou incluindo por justiça, e porque o motivo do nosso encontro é a celebração da verdade, o papel fundamental desempenhado por Tancredo Neves, que soube costurar, com paciência competência e obstinação, a transição do autoritarismo para a democracia que hoje usufruímos.
Transição é imperativo que se lembre aqui conduzida com competência, habilidade e zelo pelo presidente José Sarney, que o destino e a história puseram no lugar de Tancredo, e que nos conduziu à democracia.
Mas, mesmo reconhecendo o papel que todos desempenharam, não posso deixar de declarar o meu orgulho, por coincidir com meu governo o amadurecimento de nossa trajetória democrática. Por meio dela, o Estado brasileiro se abre, mais amplamente, ao exame, à fiscalização e ao escrutínio da sociedade.
(...)
Esta é a razão pela qual temos o dever de construir instituições eficientes e providas de instrumentos que as tornem protegidas das imperfeições humanas.
Senhoras e senhores,
Encerro com um convite a todos os brasileiros, independentemente do papel que tiveram e das opiniões que defenderam durante o regime autoritário. Acreditemos que o Brasil não pode se furtar a conhecer a totalidade de sua história. Trabalhemos juntos para que o Brasil conheça e se aproprie dessa totalidade, da totalidade da sua história.
A ignorância sobre a história não pacifica, pelo contrário, mantêm latentes mágoas e rancores. A desinformação não ajuda apaziguar, apenas facilita o trânsito da intolerância. A sombra e a mentira não são capazes de promover a concórdia. O Brasil merece a verdade. As novas gerações merecem a verdade, e, sobretudo, merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia.    (grifo meu)
É como se disséssemos que, se existem filhos sem pais, se existem pais sem túmulo, se existem túmulos sem corpos, nunca, nunca mesmo, pode existir uma história sem voz. E quem dá voz à história são os homens e as mulheres livres que não têm medo de escrevê-la. Atribui-se a Galileu Galilei uma frase que diz respeito a este momento que vivemos: “a verdade é filha do tempo, não da autoridade.”
Eu acrescentaria que a força pode esconder a verdade, a tirania pode impedi-la de circular livremente, o medo pode adiá-la, mas o tempo acaba por trazer a luz. Hoje, esse tempo chegou.”

fonte: 


quarta-feira, 16 de maio de 2012

The show must go on

O espetáculo deve continuar. Como diria Freddie Mercury:

(...)
Minha alma é pintada como as asas das borboletas
Contos de fada de ontem vão crescer mas nunca morrer
Eu posso voar - meus amigos
O show deve continuar(continuar, continuar, continuar) sim sim
O show deve continuar (continuar, continuar, continuar)
Eu irei enfrentar tudo com um grande sorriso
Eu nunca irei desistir
Adiante - com o show

(...)

Do "retiro" familiar alegro-me com as demonstrações de ampla recuperação de minha esposa face a sua cirurgia. Animo-me também com as notícias de resistência dos bravos companheiros às abitrariedades de setores conservadores da Educação Física no Distrito Federal, representados pelo Conselho Regional de Educação Física (CREF7 - DF), os quais de maneira oportuna buscaram recentemente aparelhar e legitimar seus interesses individuais através de organização com potencial base social e ressonância política, os professores e professoras de educação física. O denominado SINDEF/DF (Sindicato dos Profissionais de Educação Física do Distrito Federal) representa, em minha opinião e na de muitos companheiros militantes do exercício da educação física humanizadora, transformadora e voltada aos interesses da classe trabalhadora, mais uma tentativa desesperada de afirmação dos interesses daqueles que a desqualificam, expropriam e precarizam esse exercício profissional e seu trabalhador(a). Repudio e peço atenção para o "canto da sereia" que seduz muitos jovens egressos da academia, ocasionalmente de formação político/filosófica deficiente no âmbito da formação para a cidadania profissional.

Estação Cultural da 512 norte
de www.t-bone.org.br
Em outra vertente, acompanho com alegria o lançamento do Projeto Estação Cultural de iniciativa do Açougue Cultural T-Bone, onde usuários de transporte coletivo poderão utilizar internet wireless gratuitamente em alguns terminais de ônibus. Parabenizo o Açougue Cultural que, além de brindar a população com os magníficos shows de  MPB nos últimos anos, lançou mais essa iniciativa de democratização ao acesso à leitura e à informação.  Compartilho uma alegria pessoal quando, ao conhecer o Projeto Biblioteca Popular (o qual disponibiliza livre acesso da população usuária de transporte coletivo da Asa Norte a um vasto acervo de livros), tomei a liberdade de distribuir em alguns pontos livros e revistas em desuso em minha casa e, ao retornar a um deles, flagrei dois leitores simultaneamente usufruindo de minhas doações. Senti-me útil.

Destaco o Açougue Cultural T-Bone como protagonista da cultura e educação popular no Distrito Federal e parabenizo seus idealizadores, dentre os quais, em memória, Fafão Azevedo, pai de meu compadre Flávio Lucci. Aos que o tocam adiante, meus agradecimentos. Como cidadão.

fontes:


sábado, 28 de abril de 2012

Declaração

Minhas experiências recentes, em todos os âmbitos de minha existência, me autorizam a pronunciar com propriedade que pouca coisa vale a pena. Declaração certamente piegas. A não ser que se encare de frente a perda; a perda real, o vácuo. Então você se depara diante de você mesmo e vê-se lutando. Espontaneamente, automaticamente, verdadeiramente. Seus valores pessoais se evidenciam. Suas emoções se afloram. Você percebe-se nu e frágil diante das dificuldades.
Mas o sentimento que vale a pena o dispêndio deste trabalho pela vida, por sua vida, é real. Você segue adiante, e mais e mais. E não admite desistir. Nem falhar.
Apesar de tudo, ao final, acredita firmemente que vai vencer. Ou sentir-se vitorioso e bem sucedido em sua contenda, com o trabalho realizado. E sabe ao certo que não está findo, nem nunca estará. E está pronto para recomeçar e recomeçar novamente.
Isso é amar.
Tenho tentado demonstrar a minha esposa que a amo de verdade. E para que isso aconteça, é preciso viver, com erros e acertos. Seus valores pessoais são o que te orientam. Para quem acredita no amor com a ótica da família burguesa (Gadottti, 2003, disponível em http://acervo.paulofreire.org:8080/xmlui/handle/123456789/108) que significa apenas segurança psicológica, econômica e social, o ponteiro da bússola apontará para o individualismo, mais à frente, solidão e fracasso humano. Minha solidez há de ser a humanização, o companheirismo e cumplicidade. 
Antes da culminância deste capítulo recente de nossas existências, a microcirurgia craniana do último dia 26/04, já declarei neste espaço meus sentimentos. Uma percepção sentimental e comovida, contudo honesta e fidedigna de meus sentimentos (Poema, de dez/2011). Hoje, vividos cinco meses desta contenda, devo declarar a ti, Lili, sobretudo agradecimento. Por ter-me feito perceber que sou capaz. Estou vivo. De pé e olhando adiante. E te amo. Muito.
Achei em Renato Russo / Legião Urbana uma expressão fiel de como demonstra-se este amor. Sem pieguice, e sim absoluta franqueza. Te ofereço mais essa.
Estaremos sempre juntos. 



Monte Castelo


Ainda que eu falasse

A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal,
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem.
Todos dormem. Todos dormem.
Agora vejo em parte,
Mas então veremos face a face.

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Metal contra Pelegos

Se arrependimento matasse... Se falta de perspectiva aleijasse... Se desilusão sequelasse... 
Não vamos recuar. Até a vitória. 
Esse vídeo é fruto do sagaz bom humor de professores roqueiros durante o movimento chamado thegrevemetals. Que belo movimento grevista.





terça-feira, 27 de março de 2012

Notícias do Front - versão pessoal

A luta continua. A luta sempre continua, e na maioria das vezes é inglória. O GDF insiste em não negociar de forma concreta e honesta com a categoria. E o movimento grevista resiste com muita dignidade. Hoje estive o mais perto do palácio do governo de que em toda minha vida, graças à estratégia proposta pelo comando de greve de parar o trânsito no eixo monumental.  Lembrei-me dos manifestantes que em 2009, no mesmo local, tomaram cacetada da polícia montada no governo Arruda. Honestamente, estava me preparando para o mesmo. Afinal, temos sido tratados com tanta desonestidade quanto na época dos governos reacionários*.

Vista do governador Agnelo, se no momento da manifestação ele resolvesse sair pela porta da frente do Palácio do Buriti, sede de seu governo.

Observo com muita ressalva a presença de "neocompanheiros" da ala reacionária que aproveitam o momento para fazer oposição ao governo, pois historicamente vincularam suas práticas e condutas pessoais ou profissionais às propostas políticas de Eurides "jararaca de laquê" Brito, e sempre acusaram o sindicato de aparelho ou instrumento político ideológico da oposição em seus governos. Ironicamente pergunto: estarão eles postulando cargos no sindicato? Estarão eles preocupados com a melhoria das condições da categoria? Terão eles propostas políticas para construção de uma educação pública democrática?
A resposta é óbvia.

*para maiores esclarecimentos, recorro a Placebo: educação no novo(?) caminho

quarta-feira, 14 de março de 2012

Placebo: educação no novo(?) caminho.


As atitudes dos atuais gestores da educação pública do Distrito Federal culminaram na greve dos professores deflagrada em 08 de março último e em vigor desde o último dia 12. Tenho sido testemunha e também vítima de algumas dessas demonstrações. A foto acima, por exemplo, é a expressão dos alunos da última escola por onde passei, os quais foram vítimas de uma higienização orquestrada nos gabinetes de alguns dos altos encarregados da SEDF. E isso não pode, mais uma vez, cair no interstício da recente história de desmandos e trapalhadas que tive o desprazer de testemunhar.
Minha inquietude não permitiu que me calasse, pois atitudes como essa não podem dar amparo a políticas públicas para a educação, tampouco legitimar qualquer grupo político de esquerda. Entendo ser inadmissível que essa desorganização, oriunda de interpretações equivocadas de gestão escoradas em velhas práticas políticas, culminem nesse abandono e destrato ao ser humano. Poderia, mas preferi não me aprofundar no ECA para citar mais adjetivos que poderiam ser elencados nessa situação. O caso foi grave.
Muitas escolas da periferia são melhores
 que a maioria das do Plano Piloto, como manifestado
por eles ao desembarcarem na "ilha da fantasia"
Essa indignação resulta da compulsória transferência de estudantes em defasagem idade-série (ou seja: repetentes) da Regional de Ensino do Paranoá para uma escola sem a menor estrutura material, administrativa ou logística para acolhê-los. E, acreditem se quiser, ficaram três semanas largados ao relento sem metade dos professores, ou ainda sem sequer terem sido recebidos pela direção na porta da escola! Nem um mínimo "boa tarde"! Tremendo desrespeito. E incompetência. Ainda pior, a lição transmitida de forma explícita àqueles educandos foi: suas vidas não são definidas por vocês e sim pelos gabinetes políticos (quiçá mesas de bar); as migalhas que o poder público oferece são dessa qualidade, quer vocês gostem ou não; os critérios para distribuição dessas migalhas são subserviência, conformismo e conivência.  Essa atitude jamais poderia partir de um governo que se auto-afirma democrático e popular, o qual elegi e compus administrativamente no ano de 2011, e onde presenciei também a metástase de células rorizistas. E essa maldição me prejudica pessoalmente até hoje.
As células da metástase rorizista ganharam sobrevida com a aliança maldita composta na eleição de 2010, o que impossibilitou ou engessou a ação de alguns gestores do GDF no início de seus mandatos, o que hoje se manifesta nessa diarréia de ações mal concebidas e antagônicas ao pensamento revolucionário, de radical marxista e ontologicamente democrático. Companheiros nossos já declararam: "um novo caminho, velhas práticas".
A culminância dessas velhas práticas foi a deflagração da greve dos professores e professoras da rede pública do DF, surpreendidos com atitudes reacionárias e antidemocráticas concebidas em sua origem por governos anteriores, que representam o contraditório de nossas crenças e práticas políticas. Não acredito que o uso da força bruta, verticalização das decisões e falta de diálogo possa legitimar positivamente qualquer grupo político, debilitando companheiros históricos e fortalecendo a coalizão e o "fogo amigo". Isso leva à convalesceça de nossos propósitos democráticos e populares.
Também não é implementando o senso comum, mesmo que outrora revolucionário, e hoje possivelmente anacrônico, que se alicerçará um novo caminho. Digo sobre os exemplos vividos em meu nicho de atuação, a educação física, aplicável a outras esferas da educação pública (como o desarranjo ilustrado acima). É preciso o discernimento que a ciência e o pensamento reacionário modernizaram-se, e pior, travestidos de salvação do conhecimento e ciência humanas. Então reafirmo, não é possível construir um novo fazer na direção da emancipação de forma vertical, e por grupos que desejam apenas legitimar seu pensamento, muitas vezes obsoletos para a demanda da revolução, ainda que oriundos da academia. A educação física e a gestão central da SEDF dão sinais que isto está mais vivo do que nunca. A resposta para isso está nas ruas.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Novo golpe contra Ricardo Teixeira

grato a Blog do Miro
http://altamiroborges.blogspot.com/2012/02/novo-golpe-contra-ricardo-teixeira.html

Da revista CartaCapital:
A batata de Ricardo Teixeira está no forno mais do que nunca. Primeiro, uma reportagem da Folha de S. Paulo revelou que o presidente da CBF e do COL (Comitê Organizador Local da Copa) tem ligação com a Ailanto Marketing, empresa contratada sem licitação pelo governo do Distrito Federal, então do governador José Roberto Arruda (DEM), para organizar o amistoso entre Brasil e Portugal no estádio Bezerrão, no Gama, em novembro daquele ano.

Nesta sexta-feira, o blog do jornalista Juca Kfouri no UOL mostrou que o dono da Ailanto Marketing, o espanhol Sandro Rosell (atual presidente do Barcelona FC, ex-diretor da Nike no Brasil e sócio da Ailanto), depositou 3,8 milhões de reais na conta da filha de 11 anos de Ricardo Teixeira, no ano passado.

A Ailanto recebeu 9 milhões do governo de José Roberto Arruda para fazer o jogo. À época, além da ausência de licitação pública, causou forte estranheza o fato de a Ailanto não ter qualquer experiência em organização de eventos desse tipo. E, como se não bastasse, corre uma investigação no Tribunal de Contas local sobre um suposto superfaturamento na realização do jogo.

A Alianto foi também sócia da VSV Agropecuária, que tinha sede na fazenda de Teixeira em Piraí (RJ). A sócia da empresa é a secretária de Rosell, Vanessa Precht, que, segundo a Polícia Civil, emitiu cheques em nome do chefão da CBF.

É grande a chance de Ricardo Teixeira deixar o comando da CBF e do COL. Miami é seu provável destino, já que, segundo Juca Kfouri, sua filha de 11 anos, tem ouvido comentários desagradáveis na escola a respeito do pai.

Pois então... o cerco tá fechando contra esses lacaios. Vale a pena conferir o trabalho da Associação Nacional de Torcedores e Torcedoras, entidade da sociedade civil que desde 2010 luta de forma organizada e consciente pela moralização do futebol no Brasil. Um dos baluartes de sua luta é a investigação  do senhor supramencionado. Endereço: http://www.torcedores.org.br/

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Armadilha midiática, Revolução no Egito e Educação Física Escolar


A tragédia ocorrida em um estádio de futebol do Egito após a equipe de maior prestígio e mais vezes campeã naquele país ser derrotada, e a sequente invasão do gramado por torcedores da equipe vencedora tem sido alardeada em nossa grande mídia como mais um caso de violência no futebol. Mas é necessário recorrer à análise da notícia de maneira histórica, pois os jornalistas esportivos de nosso país, que têm-se prestado ao papel de mero reprodutor de notícias, são incapazes de fazer a leitura correta e contextualizada dos acontecimentos. 
Esse não foi um acontecimento simplesmente de ordem esportiva ou sóciocultural como o caso das brigas entre torcedores em nosso país. Esse é um problema político, tendo em vista que o Egito vive há cerca de dois anos a instabilidade política e social. Não há emprego, não há perspectiva, não há governo, impera-se o clima de anarquia no país, os serviços básicos estão precários, e há disputa política por hegemonia entre diferentes grupos para se estabelecerem no comando do país, além de conflitos freqüentes com as tropas do governo.
Além de tudo, o time derrotado Al Ahli estabelece a hegemonia do futebol há muitos anos, e o povo egípcio derrubou há um ano, e na porrada, o governante Mubarak que estabelecia a hegemonia  política do país!  Hegemonia no esporte e na política significam acúmulo de renda e autoritarismo, e isso significa pobreza e revolta. Ouvi a entrevista do jogador brasileiro que estava em campo relatando que entre os torcedores havia muitos xingamentos, ofensas, expressões de cunho racial, étnico, bairristas, o que demonstra que este não foi mais um caso de violência no esporte, e sim de violência social.
Alguns jornalistas (e não "comentaristas esportivos") se apropriaram das estórias de violência no esporte como algo pertencente à esfera de comportamentos baníveis da sociedade, cuja entidade esportiva deve legitimamente bani-la, ou varre-la pra debaixo do tapete. Não vislumbram (ou não divulgam) serem manifestações que exprimem o sentimento de atores sociais, a forma como reagem à própria sociedade:  trabalho, educação, lazer, saúde, cultura, relacionamentos inter-pessoais, etc. Manifestações de violência são execráveis, mas denotam a manifestação daquilo que é construído e vivido socialmente; pertence à raça humana, e assim como outros bons ou maus comportamentos, e apresentam-se onde há intervenção humana. No esporte inclusive.
Analistas esportivos não conseguem ou não querem discorrer sobre isso, ou, se sabedores, devem ser severamente proibidos de discorrer a respeito. Minha preocupação é a reprodução desse modelo de análise nas salas de aulas, onde nossos companheiros e companheiras professores são induzidos à fragmentação dos acontecimentos. Fico à vontade para falar em relação aos meu pares de Educação Física, onde muitos insistem em deixarem-se educar através "professores" do globo esporte, terceiro tempo, redação sportv, troca de passes, etc. 
De fato as torcidas organizadas de times de futebol no Egito tiveram papel fundamental para a revolução que derrubou o ditador Mubarak no ano passado, ou seja, o futebol foi pretexto para que pessoas com propósitos democráticos encontraram para reunirem-se e fortalecerem-se como grupo de livre expressão e legítimo em um país sob regime ditatorial, conforme analisou Eduardo Febbro para Carta Maior:

"Nas horas mais violentas da segunda fase da Revolução egípcia que fez da praça Tahrir o seu território de rebeldia, as torcidas organizadas egípcias atuaram como a tropa de choque que se enfrentou com a polícia nos combates mais cruentos que estouraram nos acessos à rua Mohamed Mahmud. Essa via conduzia ao Ministério do Interior e era, tanto para os manifestos quanto para a polícia, um lugar estratégico. Sem aqueles jovens de 20 anos fanáticos por futebol e oriundos dos bairros pobres do Cairo, sem sua cultura aguerrida dos enfrentamentos, a praça teria caído nas mãos da polícia. As torcidas organizadas que surgiram na América Latina nos anos 70 apareceram recentemente no Egito. Os primeiros grupos apareceram em 2005 e, quase imediatamente, entraram para a oposição ao regime do deposto Hosni Mubarak e aos membros de seu braço político, o Partido Nacional Democrático (PND).

Incontroláveis pelas estruturas patriarcais que dirigem os clubes de futebol, a maior parte das vezes aliadas de uma ou de outra forma com o regime, hostis ao comando do PND, furibundos contestadores da autoridade policial, a qual desprezam por sua endêmica corrupção e pela brutalidade insensata com que atuava, os « ultras », como são conhecidos, desenvolveram uma estrutura poderosa, rebelde e violenta. 

Autônomos nos planos político e material, já que não dependem dos clubes com os quais simpatizam, eles fizeram da guerrilha contra as forças da ordem um estilo de vida. Seu desenvolvimento foi tão rápido quanto sua capacidade de se organizar. Os analistas egípcios davam conta de que, depois da Irmandade Muçulmana, os clubes de torcedores que nasceram nos meados do ano 2000, eram as estruturas mais organizadas do país. Duas torcidas se destacam entre todas : a White Knights, dos torcedores do clube Zamalek SC, e a dos torcedores do Al Ahly Sporting Club, um dos grupos envolvidos no massacre de Porto Said.

Em outubro e novembro do ano passado, em plena revolta da Praça Tahrir, Carta Maior compartilhou com esses torcedores momentos de uma extrema violência e de uma grande solidariedade interna. Poucos dias antes das eleições que marcaram o ingresso do Egito em um sistema democrático mais aberto, os revolucionários de janeiro de 2011 voltaram a ocupar a praça para exigir da junta militar mudanças substanciais no dispositivo eleitoral, assim como a entrega imediata do poder aos civis. A polícia respondeu com mais virulência do que nas revoltas que desembocaram na queda de Hosni Mubarak. Mas as torcidas organizadas estavam ali para defender a praça Tahrir. Nada os dissuadia : estavam perfeitamente treinados para suportar os gases lacrimogêneos, pular paredes, atirar pedras e se chocar diretamente contra as unidades policiais especializadas em repressão urbana. 

A Revolução egípcia unificou as trocidas por cima das rivalidades clubísticas. « Eles foram os atores determinantes da Revolução de janeiro. No dia 25, sem que ninguém os chamasse e sem que houvesse uma consigna posterior, eles vieram para defender a Praça Tahrir e dali não se moveram », lembrava Tamer, um advogado recém formado. Sua presença ficou gravada nos muros do Cairo junto aos grafites da revolução. 

A consiga dos ultras, ACAB (All Cops are bastards, Todos os policiais são bastardos) ocupa tantos lugares quanto as consignas revolucionárias.
Graças à internet, aos telefones celulares e às redes sociais, a capacidade de mobilização destes grupos é tão massiva como instantânea. Os três principais nucleos de torcidas organizadas, Ahlawy, White Knights e Blue Dragons, atraem dezenas de milhares de pessoas em um piscar de olhos. 

Calcula-se que esses três grupos são capazes de reunir cerca de 20 mil pessoas e levara para a rua mais de 50 mil. Sua influência chegou a tal nível que, durante os últimos anos de Kubarak, a policia ia prender os líderes das trocidas em suas casas e os julgava logo em tribunais militares.

Os torcedores radicais da equipe do Cairo, Ahly, e os do Zamalek foram os que mais se comprometeram no combate contra Mubarak. Não parece ser um acaso que tenham sido agora objeto de uma vingança sangrenta ante à passividade cúmplice da polícia. Omar, um cairota de 20 anos, membro dos White Knights, dizia em novembro de 2011 que a polícia egípcia era « uma assassina » e que se havia algo que era preciso mudar com urgência no país era « limpar esse corpo de torturadores e corruptos ». Gasser Abdel Ruzek, um dos dirigentes da Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais, contava no ano passado que os torcedores de futebol passaram da condição de fanáticos de um clube para a de « soldados » da liberdade."

Texto de Eduardo Febbro
Tradução: Katarina Peixoto

Excetuando a barbárie que vitimou mais de setenta cidadãos egípcios, cujas mortes, em sua maioria decorreram do tumulto e não do confronto, é honesta a contextualização dos fatos históricos que se reproduzirão em sala de aula, ainda que sob a chancela do(a) educador(a)-mediador(a), mas o quão possivelmente livre da chancela midiática, que hoje em dia exerce grande influência em nosso campo de atuação, qual seja, as diversas manifestações corporais humanas (dentre elas o esporte) cuja direção deve apontar para a emancipação. Assim originalmente propuseram os grupos organizados de torcedores egípcios.